Em janeiro deste ano, a Unidade de Pronto Atendimento (UPA) Nestor Piva (zona Norte) se tornou pioneira na captação de córneas realizada por um hospital municipal, em Sergipe. Para além das questões burocráticas e adequações de estrutura, ou mesmo de capacitação médica para a realização do protocolo de captação, existe um passo essencial em todo o processo: o olhar humano, seja para com as pessoas que estão na fila de espera para receber o transplante ou, principalmente, em relação a quem perdeu um ente querido.
Há um ano, a gestão do Nestor Piva passou a ser terceirizada, uma medida tomada pela Prefeitura de Aracaju, por intermédio da Secretaria Municipal da Saúde (SMS), no sentido de qualificar o serviço prestado, levando em consideração que a unidade hospitalar é responsável pela zona Norte da capital, região com alta densidade demográfica, além de atender usuários do interior e até de estados vizinhos, como Bahia e Alagoas. Como um dos resultados da ação assertiva, a captação de córneas é um feito a ser valorizado e disseminado.
A gestora hospitalar da UPA, Jória Dias, considera que alguns passos foram fundamentais na transição da gestão e contribuíram para procedimentos como a captação de córneas. “A primeira ação foi a questão das escalas, depois foi tentar trabalhar o atendimento da forma mais humanizada possível e, em seguida, procuramos nos adequar e encontrar meios para poder beneficiar melhor a população”, destaca.
Segundo Jória, uma das sugestões que chegou até à gestão, partiu do coordenador da Estabilização, o médico Reginaldo Freitas. “Foi ele quem percebeu o potencial para a captação de córneas e, a partir daí, passamos a trabalhar para nos encaixar nos critérios para a realização do protocolo”, explica.
De acordo com gestora hospitalar, mais leitos foram disponibilizados na sala de estabilização, equipamentos de ponta foram adquiridos, e outros protocolos foram realizados com a finalidade de fazer do Nestor Piva um hospital apto para esse tipo de procedimento.
Para o médico à frente do projeto, Reginaldo Freitas, entre todas as melhorias realizadas para que a unidade se encaixasse nos critérios determinados pelo Ministério da Saúde, a capacitação da equipe, incluindo médicos, enfermeiros e assistentes sociais, garantiu que o Nestor Piva não apenas tivesse competência estrutural, mas que, de fato, realizasse a captação de córneas.
Com isso, afirma o coordenador da Estabilização, em menos de um mês, dois procedimentos foram realizados na unidade. O primeiro, no dia 6 de janeiro, em um paciente o sexo feminino, de 59 anos, cuja causa da morte foi problemas cardíacos. Já a segunda captação, ocorrida no dia 22 de janeiro, foi em um paciente do sexo masculino, de 61 anos, que veio a óbito devido a complicações cardíacas.
“Não é só checar o potencial da unidade, tem que treinar a unidade, não só para diagnosticar o potencial doador em tempo hábil, mas, também, abordar a família. Temos uma recusa muito grande de doações de órgãos no Brasil, algo em torno de 40%. Em Sergipe, esse percentual é um pouco maior, em torno de 70%. Então, trabalhamos muito a questão da abordagem da família porque é um momento de luto. Ninguém está esperando a notícia que o paciente veio a óbito e muito menos que vai tirar o globo ocular. Inicialmente, as duas famílias foram contra, mas, com o treinamento e a capacitação, a enfermagem esperou o luto, conversou, e os familiares resolveram doar”, ressalta o Reginaldo.
O médico frisa, ainda, a relevância da doação. “É dar a oportunidade de uma pessoa voltar a enxergar. Acho que toda unidade que tem uma área crítica, que é a área vermelha e uma área de estabilização, pode fazer esse trabalho que envolve, acima de tudo, força de vontade, porque tudo que precisa é de capacitação e todo o material é ofertado pela Organização de Procura de Órgãos (OPO) do Estado, basta comprometimento. O benefício para a comunidade é imenso, visto que está dando a oportunidade de uma pessoa voltar a enxergar”, justifica.
Uma das profissionais da unidade que participou do processo de acolhimento das famílias foi a enfermeira Renata Batista, que também participou da capacitação.
“A primeira questão é a empatia, principalmente por parte do profissional que está na ponta. É acolher a família, respeitar o momento dela. Logo de início, não falamos sobre isso, já que no primeiro momento, a família ainda nem assimilou a perda. Depois de um tempo, falamos sobre o procedimento, explicamos como funciona e, sobretudo, deixamos claro que vai ajudar outras pessoas. Se todos nós pensássemos o quanto podemos ajudar o outro com um simples ato, seria muito mais fácil. Um dia, quem sabe, pode ser que nós mesmos precisemos, ou algum parente”, afirma Renata.
Parte da equipe de assistentes sociais do Nestor Piva, Karinne Nascimento explica como se dá o acolhimento e o esclarecimento sobre a possível doação de córnea. “Geralmente, quando há um óbito, levamos os familiares para a sala da Assistência Social. Quando chega a situação do possível doador, sempre vamos para o lado da humanização. Já existe esse primeiro acolhimento por conta do óbito, então, já temos esse processo. Uma das coisas que a gente bate na tecla é que as pessoas conversem com suas famílias sobre esse momento e deixe claro a abertura para a doação. Falar sobre isso é muito importante e pode salvar vidas”, salienta.
Para a gestora da unidade, a questão doação de órgãos é algo que precisa ser levantado constantemente, uma pauta indispensável. “Existe pessoas que tentam suicídio porque perdem a visão e, às vezes, quem tenta suicídio é um ermo de família, quem movimenta toda a família. Então, um transplante de córnea é a chance de, literalmente, devolver a vida de alguém. Se o familiar puder entender que ele vai poder ajudar alguém a enxergar pelo olho daquela pessoa que ele tanto amava, vai compreender que isso é distribuir amor. Por falta de conhecimento, algumas pessoas acham que o parente falecido vai ficar desfigurado, e pensam na questão do velório. No entanto, toda a parte estética é feita. Quando o corpo sai para o velório, estará pronto, não existe mutilação”, esclarece Jória.
Quando teve conhecimento do procedimento que o Nestor Piva passou a fazer, Maria Isabel da Silva, de 67 anos, abriu um sorriso. “Acho muito bonito o ato de doar. Para ser honesta, nunca parei para pensar nessa questão, no caso, de ser doadora, mas, quando ouvimos essas notícias, acende uma luzinha. Poder contar com isso num hospital municipal é importante, ainda mais se tiver gente qualificada para explicar como funciona”, afirma.
Assim como Maria Isabel, Valter Batista Júnior, de 22 anos, também não havia pensando sobre doação de córneas ou órgãos, até então. “É uma maneira de ajudar as pessoas, mesmo depois de partir. Creio que seja uma atitude nobre e que deve acontecer mais, afinal, não levamos nada quando morremos. Além disso, quanto mais o serviço público estiver qualificado, melhor”, considera.
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