A campanha em alusão ao Setembro Amarelo existe no Brasil desde 2015. Ela foi criada com o principal objetivo de conscientizar a população sobre a importância da prevenção e do tratamento de distúrbios mentais, a exemplo da ansiedade e da depressão. Segundo um levantamento da Organização Mundial da Saúde (OMS), 9,8% dos brasileiros passam por quadros de ansiedade no país, o que torna a população brasileira a mais ansiosa do mundo. Além disso, de acordo com um estudo realizado pelo Ministério da Saúde, 15,5% da população no Brasil pode ser vítima de depressão nos próximos anos.
Para diversas pessoas que enfrentam algum desses transtornos diariamente, o esporte pode funcionar como uma “válvula de escape” no processo de tratamento, assim como também uma forma de prevenção. Por esse motivo que, na Estação Cidadania – Esporte Radialista Carlos Magno, complexo poliesportivo mantido pela Prefeitura de Aracaju, por meio da Secretaria Municipal da Juventude e do Esporte (Sejesp), os profissionais de educação física desenvolvem, durante as modalidades, não apenas o aspecto físico, mas também o mental.
A secretária da Sejesp, Liliane Borba, fala sobre a importância do esporte no bem-estar mental das pessoas e na promoção da saúde. “Através da prática esportiva, para além do cuidado com o físico, ela permite sociabilização, integração, construção de relações a partir do momento que o indivíduo realiza a atividade em grupo, como acontece na Estação. São vários os relatos de alunas e alunos sobre como ir ao espaço para uma aula de funcional, de ritmos, ou das demais modalidades oferecidas, tem sido como uma espécie de terapia, se assim podemos dizer. Ou seja, para a integridade da nossa saúde, é necessário que a relação entre corpo e mente esteja em harmonia e o esporte tem contribuído para isso”, pontua a secretária.
O psicólogo Tiago Rezende, do Ambulatório de Saúde Mental (Ament), vinculado à Secretaria Municipal da Saúde (SMS), explica como o processo mental reage aos estímulos do corpo e associa isso aos benefícios da prática regular de atividade física, tanto para o indivíduo, como para a sociedade no geral.
“Diversos estudos atestam que a prática de atividade física apresenta resultados positivas à saúde mental das pessoas, pois numa perspectiva da neurofisiologia, há substâncias químicas [hormônios] que causam sensação de bem-estar, como por exemplo a serotonina, dopamina, endorfina e ocitocina. Para além de movimentar o corpo, a prática esportiva regular auxilia na prevenção de doenças, melhora a aptidão física e promove o estabelecimento e manutenção das relações sociais. Foco, dedicação, resiliência, desempenho, entre outros, são elementos que auxiliam no desenvolvimento biopsicossocial das pessoas, em que os exercícios físicos são ferramentas para melhorar a autoestima, imagem corporal, cognição e a sociabilidade”, afirmou o profissional de saúde mental.
Kamylle Oliveira, de 13 anos, é aluna de Fut 7 e faz parte da Estação Cidadania há dois anos. Ela conta que há cerca de um mês começou a apresentar alguns quadros de ansiedade, e que as aulas semanais no complexo tem ajudado a enfrentar a doença.
“Quando eu venho pra aula de Fut 7, eu estou no meio de pessoas que eu conheço, que eu me sinto confortável. Por exemplo, eu já conheço e treino com Jordano há dois anos, conforme o tempo eu fui tendo confiança nele, essa confiança faz eu me sentir bem, me ajuda a não ficar tão ansiosa ou nervosa”, disse a aluna.
O professor de Futsal e Fut 7 do complexo esportivo, Jordano Bruno, ressaltou que o diálogo com os alunos é um dos pilares das aulas. “A gente sempre conversa sobre como está a vida de cada um aqui, como eles estão. Se for o caso de perceber algum comportamento diferente no aluno, a gente também consulta os pais pra saber se ele [o aluno] tem algum diagnóstico de ansiedade ou depressão. Muitas das vezes, conversar e prestar atenção de maneira específica a cada aluno é importante também, porque pode acontecer dos pais não perceberem alguma mudança expressiva no comportamento do filho, mas que a gente consegue enxergar aqui”, afirmou o professor.
Já Enzo Freitas, de 12 anos, está matriculado no futsal há quase um ano. Sua mãe, Daniella Freitas, relata que, desde bem jovem, o garoto foi diagnosticado com alguns transtornos, dentre eles o Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH), e que a entrada do filho na Estação Cidadania foi muito necessária durante o tratamento.
“Antes de eu matricular ele na Estação, Enzo já fazia tratamento com medicação, mas ele ainda era um pouco agressivo comigo e com algumas pessoas da família. Quando eu trouxe ele pra conhecer o espaço, de primeira ele falou que gostou mais do futsal e queria entrar. Durante esse tempo que ele está aqui, já conseguiu fazer muitas amizades, se tornou muito mais comunicativo, fala com todo mundo e sempre cumprimenta os professores. As aulas também ajudaram no desenvolvimento do corpo dele, fizeram ele perder um pouco de peso e melhorar a alimentação, o que é muito importante durante o tratamento com medicação”, destacou a autônoma.
A dança, além de movimentar o corpo, ajuda a espairecer a mente. Eliane dos Santos, de 58 anos, é aluna da Ginástica Dance há mais de um ano. Para ela, que descobriu um quadro de depressão e ansiedade há oito anos atrás, as aulas são fundamentais na sua vida.
“Meu psiquiatra me orientou a fazer algo que eu goste, e eu gosto de dançar, por isso me matriculei aqui. Quando eu saio das aulas, me sinto outra pessoa. Em casa, passei a escutar outras músicas que tocam aqui e que levantam meu astral. A minha qualidade de vida melhorou muito, física e psicologicamente. Eu sempre indico para qualquer pessoa que, assim como eu, que passa ou já passou por ansiedade ou depressão, que procure um esporte pra fazer porque ajuda muito e vale a pena”, comentou a aluna.
No âmbito do esporte voltado para o alto rendimento, o trabalho com a saúde mental também é importante para que os atletas não se sintam pressionados ou enfrentam um cenário de culpa, caso os resultados esperados não sejam alcançados.
Na Estação, alunos de atletismo participam com frequência de competições regionais e nacionais. O professor da modalidade, Ozias Pontes, explica sobre esse trabalho social desenvolvido nas aulas.
“Na parte inicial dos treinos, eu sempre procuro bater um papo com os alunos, reúno todo mundo e converso com eles sobre como está sendo a semana, sobre como eles estão indo na escola. Já durante o período de pré-competição, um dia antes eu faço um processo de mentalização, coloco todos deitados no tatame, peço pra que eles fechem os olhos, coloco uma música de fundo e naquele momento somos transportados mentalmente para o momento da competição, visualizando a corrida, o salto, o arremesso, o lançamento e etc. Eu acabei percebendo que isso acaba ajudando bastante eles a ficarem calmos durante a competição, o que melhora as performances”, relata.
Além dessa dinâmica, o professor pontua sobre a relevância de fazê-los entender que o resultado de uma competição não define a qualidade do trabalho que, diariamente, eles realizam, a fim de estimulá-los a executarem as atividades sem peso e pressão.
“Sempre dialogo com eles mostrando que há muitos fatores que interferem na realização do trabalho. O atleta pode ter feito, em todos os treinos, o melhor tempo possível, mas no dia da competição, até mesmo por conta do contexto de disputa, algo pode interferir. Por isso, eu tento ressaltar que eles não se resumem a colocação em que ficam, ao tempo que conseguem na prova, seja quando perde ou quando ganha, para que entendam que esporte é muito além de resultados”, disse o treinador.
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