O Sistema Único de Saúde (SUS) tem como uma das diretrizes a formação em saúde. Na Prefeitura de Aracaju, esse aprendizado é seguido à risca, através da estrutura oferecida pela Secretaria Municipal da Saúde (SMS), por meio do Centro de Educação Permanente em Saúde (Ceps).

As unidades de saúde da capital recebem, por semestre, cerca de 7.500 alunos de universidades, faculdades e escolas técnicas dos cursos da área da saúde que fazem estágio na Rede SUS de Aracaju.

O acompanhamento é realizado através do Núcleo de Integração Ensino-Serviço do Ceps, que regulamenta os estagiários de formação técnica, de graduação e os residentes. O setor também faz a articulação e a pactuação para dentro da rede (serviço) e para fora também (ensino).

Como funciona

Psicóloga e uma das técnicas do Núcleo, Simone Barbosa explica como é realizado o recrutamento e contratação dos estudantes. “Nós fazemos a intermediação com as instituições de ensino, tanto as públicas quanto as privadas que têm convênio com a Prefeitura de Aracaju, por intermédio da Secretaria de Planejamento, Orçamento e Gestão (Seplog), e também fazemos a ponte com as áreas técnicas da pasta, que é o serviço, por isso integração ensino-serviço. Mas a relação é institucional, o convênio é formalizado pela Seplog para os estágios obrigatórios, que são os estágios curriculares. O Ceps regula os convênios educacionais para estágios não obrigatórios, que podem ser remunerados ou não”, informou.

A função do Núcleo é articular e regular os estágios, sendo que o trabalho é permanente porque a cada semestre a SMS recebe novos estudantes. “De um lado existem as instituições de ensino que precisam do SUS para formar os seus alunos na área da saúde, e o SUS, por sua vez, tem a obrigação de formar trabalhadores no SUS e para o SUS. Esses estudantes daqui a pouco serão trabalhadores, como eu fui um dia. Eu passei pelo SUS Aracaju, fui estagiária de um Centro de Atenção Psicossocial (Caps), então eu me formei no SUS e cá estou trabalhando no SUS”, exemplificou Simone.

O Núcleo, formado também pelas técnicas e enfermeiras Ana Paula Cândido e Jaqueline Nascimento Almeida, é responsável pela reestruturação e reorganização de processos internos de trabalho como instrutivos para as instituições de ensino e construção do plano de ocupação de vagas junto às áreas técnicas, que é a capacidade instalada dos serviços em receber os alunos.

Importância

A técnica do Ceps ressalta a importância do estagiário na equipe, que colabora com ideias novas e assistência. Ela explica como funciona o processo. “Em geral, as turmas vão acompanhadas de professores, mas quem explica como funciona o serviço é o trabalhador da unidade. O estágio é importante porque faz a junção da teoria e a prática”, explicou, ao destacar a diferença entre preceptor, que é o trabalhador do serviço e o tutor, que é o professor da instituição de ensino.

Por exemplo, somente dos cursos de Enfermagem de Aracaju, quando somadas todas as faculdades e escolas técnicas, são cerca de dois mil alunos por semestre atuando na rede municipal.

“Os estagiários estão em todos os pontos da rede, nas Unidades Básicas de Saúde (UBS), nos Caps, na Rede Hospitalar, na Especializada, enfim, em todos os lugares da nossa rede têm estudantes. Mas a Rede de Atenção Primária (Reap) é a que mais recebe estagiários por ser uma rede robusta, pois é composta por 45 unidades”, acrescentou.

Na UBS Dr. Roberto Paixão, do bairro 17 de Março, já existe a parceria com a Universidade Tiradentes (Unit), que faz o intercâmbio entre os estudantes. “Boa parte dos cursos da Unit quer estagiar lá. Mas, mesmo tendo uma parceria, o Núcleo de Integração Ensino-Serviço continua regulando eses estágios. Eles pedem aquela unidade para estagiar, então nós fazemos a regulação porque só podem ter no máximo seis estagiários por turno para não atrapalhar o andamento do serviço”, frisou Simone.

Formação

No SUS de Aracaju há estudantes de todas as áreas da saúde: Fisioterapia, Medicina, Enfermagem, Fonoaudiologia, Odontologia, Psicologia, Nutrição, Farmácia, Educação Física, Serviço Social, Engenharia de Alimentos, Medicina Veterinária, Biologia, Radiologia e Residências em Clinica Médica, Medicina de Família e Comunidade, Otorrinolaringologia, Cirurgia, Multiprofissional em Enfermagem Obstétrica, Saúde Mental e Saúde da Família.

A médica de Homeopatia do Cemar Siqueira Campos e professora de Medicina da UFS, Salvyana Sarmento afirma que o SUS é ordenador da formação de profissionais e o estudante deve compreender o funcionamento do SUS desde o início da formação.

“Os estágios curriculares obrigatórios estão muito bem consolidados, desde 2008 através da nova lei de estágios, passam obrigatoriamente por toda a rede. E as residências também. O Ministério da Educação (MEC) tem como diretriz a formação em serviço, como a Residência Médica e a Multiprofissional. Os residentes têm que ter uma inserção no sistema público de saúde”, explicou a professora das disciplinas “Introdução à Saúde da Família e Comunidade” do 1º período, de “Epidemiologia II” do 4° período e auxilia no “Internato de Medicina Preventiva e Social”, que inicia a partir do 9º período até o 12º.

Para Salvyana, a importância é inserir estas pessoas em formação na realidade da vida dos usuários do SUS que elas vão cuidar, conhecer as comunidades, os principais problemas de saúde, as necessidades que esses usuários trazem para o serviço de saúde, conhecer a rede em si, como é o fluxo de encaminhamento do generalista para o especialista, dos exames.

“Enfim, entender como funciona toda essa rede porque um dia eles estarão inseridos nela, sem contar que o SUS ainda hoje é o maior empregador da saúde, de um jeito ou de outro esses estagiários vão trabalhar em uma frente do SUS. Então elas precisam, desde a formação, conhecer essa rede porque elas vão ter mais condição técnica. “Quanto mais cedo as pessoas em formação vão se expondo à realidade, mais vão se apropriando e conseguindo uma formação melhor”, completou.

Opinião

A acadêmica do último período do curso de Serviço Social da UFS, Liliane Lima Santos, estagiária na Rede de Atenção à Saúde do Trabalhador (Reast), percebeu que a prática necessita da teoria, um complementa o outro. Ela acompanha, desde março, as ações no Centro de Referência em Saúde do Trabalhador (Cerest) e da Vigilância em Saúde do Trabalhador (Visat).

“Durante este período aprendi a olhar o trabalhador em sua totalidade, vemos o trabalhador como uma parte da atividade que ele faz, mas é, além disso, porque ele pode adoecer pelo próprio trabalho e não reconhecer porque fica tão alienado em trabalhar que esquece de se observar como ser. O que eu percebi, particularmente, foi que os trabalhadores não reconhecem o trabalho como fator para o adoecimento. Então, é muito importante estagiar nos serviços de saúde para entendermos melhor como funciona”, ressaltou Liliane.