Conflitos familiares, dificuldades financeiras, desilusões nas áreas profissional e sentimental, uso de substâncias psicoativas e a falta de liberdade. Essas são algumas das inúmeras situações que as nove equipes da Abordagem Social, um dos serviços ofertados pela Prefeitura de Aracaju, por meio da Secretaria Municipal da Assistência Social, ouvem das pessoas que fazem da rua, o seu novo espaço de moradia e/ou sobrevivência.

Os diálogos acontecem quando os profissionais – assistentes sociais, psicólogos e educadores sociais – saem às ruas para observar a incidência ou concentração de risco pessoal e social, por violações de direitos, e se deparam com adultos, crianças, adolescentes, jovens, idosos ou famílias, em situação de extrema vulnerabilidade social, concentrados em praças, semáforos, prédios abandonados, feiras, mercados, entre outros pontos da cidade.
 
Durante a abordagem, quando o indivíduo aceita receber acolhimento institucional, ele pode ser encaminhado para o Acolher, unidade de acolhimento para pessoas em situação de rua, ou para o Centro de Apoio ao Migrante (CAM)/Casa de Passagem, destinado ao atendimento de pessoas em situação de desabrigo, desde que estejam em processo de migração, realizado em parceria com a Secretaria de Estado da Inclusão e Assistência Social. Já o Centro de Referência Especializado para População em Situação de Rua (Centro POP), localizado na região central da cidade, é um espaço de apoio para aqueles que necessitam de atenção imediata, mas não pretendem receber o acolhimento.  

De acordo com a secretária da Assistência Social de Aracaju, Simone Passos, a pasta cumpre uma das diretrizes da Política Nacional de Assistência Social (PNAS): a matricialidade sociofamiliar. A secretária ressaltou que somente neste ano, cerca de 40 pessoas em situação de rua voltaram ao convívio familiar, apesar das dificuldades enfrentadas pela pandemia.
 
“Entendemos que o núcleo familiar é fundamental para evitar que o vínculo afetivo e comunitário se rompam. Quando há o rompimento, nossas equipes articulam estratégias de reaproximação para reinserir o indivíduo na relação sociofamiliar. É importante ressaltar que também atuamos na prevenção, oferecendo atendimento a indivíduos e famílias através dos Serviços de Proteção e Atendimento Integral à Família, o PAIF, e de Convivência e Fortalecimento de Vínculos, o SCFV, ofertado em nossos Centros de Referência da Assistência Social, nos Cras”, destacou Simone.
 
A equipe da Abordagem Social também realiza ações conjuntas, encaminhando o usuário para outros serviços de acordo com cada necessidade identificada, a exemplo da equipe do programa “Consultório na Rua” e do projeto “Redução de Danos”, ambos executados pela Secretaria Municipal da Saúde (SMS), com a finalidade de oferecer atendimentos médicos e orientações sobre o uso indevido de substâncias psicoativas.

De acordo com o coordenador da Proteção Social Especial (PSE) do município, Jonathan Rabelo, diariamente, aproximadamente 140 pessoas são atendidas no Centro POP. Atualmente, 23 pessoas em situação de rua se encontram no Acolher e 17 na Casa de Passagem. “Após o acolhimento dentro das unidades, é feita a escuta qualificada para compreender as necessidades e objetivos de cada indivíduo. Muitas vezes, eles apresentam a demanda de reinserção familiar, quando não há o interesse, a equipe técnica de assistentes sociais, psicólogos, cuidadores e educadores sociais, no dia a dia, começa a fazer buscas sobre os parentes, onde moram, o motivo do afastamento do seio familiar, entre outros questionamentos. Minimamente, é feito um diagnóstico do usuário. Após a entrevista, começamos a traçar estratégias de reaproximação, fazendo o contato com a família”, explicou o coordenador.
 
A Assistência Social de Aracaju também assume o papel de garantir os cuidados e proteção àqueles que optam por permanecerem nos espaços públicos. “É um direito da pessoa em situação de rua aceitar ou não o acolhimento institucional. Caso não queira, também temos a obrigação de dar condições de sobrevivência adequadas enquanto ela estiver na rua, e fazemos isso através do Centro POP, das equipes de Abordagem Social, com garantia de acesso à rede de saúde, documentação, para que possa ter seus direitos cumpridos. O nosso papel é compreender os processos de vida, buscar a sensibilização da família, dando autonomia para o usuário. Quando a reinserção familiar acontece, conseguimos chegar ao objetivo e sentimos que o trabalho valeu a pena”, ressaltou Jonathan.
 
O coordenador da PSE explicou ainda que há outra alternativa quando a reinserção familiar não acontece. “Quando não conseguimos, tentamos a reinserção comunitária para que o usuário possa viver em condições adequadas em espaços de moradia, incluindo-o nas políticas públicas do município como o acesso a benefícios sociais, participação em cursos profissionalizantes, inserção no mercado de trabalho, entre outras ações socioeducativas.”, concluiu Jonathan Rabelo.