Há cinco meses, a Prefeitura de Aracaju firmou convênio com o Instituto Arapyaú, uma iniciativa que tem como principal objetivo desenvolver soluções inovadoras para os principais problemas da capital. Uma das primeiras áreas trabalhadas a partir dessa parceria é a Saúde, mais precisamente a mortalidade infantil na cidade, com foco na redução dos índices negativos.

No âmbito das diretrizes do Planejamento Estratégico da gestão, a entidade sem fins lucrativos agrega ao Município expertise ao apurar o entendimento sobre a realidade local e trazer metodologias diferentes para mitigar problemas. O primeiro trabalho realizado pelo Instituto, na Saúde, foi diagnosticar quais os problemas mais complexos que precisam ser solucionados, assim, foi identificado que a mortalidade infantil é o fator que demanda ações inovadoras para que haja a melhora nos índices.

A taxa de mortalidade de uma localidade é um importante indicador social por estar atrelada a situações de desnutrição, doenças e à pobreza, portanto, atinge, principalmente, a parcela mais vulnerável da população, grupo que é prioritário nas ações realizadas pela Prefeitura nos mais diversos âmbitos da administração pública.

“Criamos uma sala de situação para evidenciar os perfis epidemiológico, econômico e de vigilância da saúde. As taxas de mortalidade infantil e materna está muito associada ao pré-natal ou falta dele, portanto, o nosso foco passou, primeiro, por conscientizar a população sobre a necessidade de as gestantes terem o devido acompanhamento pré-natal. Junto ao Instituto, primeiro, fizemos o diagnóstico. Já tínhamos um esboço e o instituto veio para consolidar e, assim, pudemos trabalhar nossas estratégias de ação, e hoje estamos nessa fase de tecer as estratégias”, detalha o secretário adjunto da Saúde de Aracaju, Carlos Noronha.

Com o diagnóstico, as equipes da Secretaria Municipal da Saúde (SMS), integradas ao Instituto, passaram a atuar em três frentes. “Uma é aumentar a quantidade de consultas que as mulheres fazem no pré-natal. Temos um indicador que é muito grave. Das mortes infantis que aconteceram aqui em 2019 mais de 75% das mulheres não tinham feito nem quatro consultas. Outra frente é organizar a fila de exames, o que vai auxiliar quebrar esse mito de que tudo no SUS demora. E a terceira frente é a construção de um banco de dados que ajude a gestão a identificar a saúde de cada UBS no acompanhamento materno infantil. A partir disso, a intervenção fica mais fácil”, explica a gestora local do Instituto em Aracaju, Larissa Leme.

De acordo com o secretário adjunto da SMS, o município precisa de parcerias como essa para poder colocar as políticas em ação. “A SMS precisa trabalhar, não apenas apagando fogo, não apenas resolvendo as demandas externas que chegam, mas, fazendo uma programação para a elaboração de estratégias, para que não entremos em processo de crise porque crise, para mim, acontece quando uma coisa foi mal elaborada, mal prevista”, ressalta.

Segundo o adjunto da Saúde, atualmente, Aracaju trabalha mais a programação de estratégias, de ação, algo que evita chegar a momentos de crises. “Essa parceria está colaborando nesse sentido. Saúde é tudo para ontem, tem urgência em tudo. Podemos até programar as ações, mas temos que resolver logo, porque estamos falando de preservar vidas”, pontua Carlos Noronha.

A coordenadora da Rede de Atenção Primária da SMS (Reap), Monalisa Fonseca, destaca que a Saúde municipal já vinha sinalizando tanto com relação à taxa de mortalidade infantil, como também na parte da qualificação desse pré-natal.

“Em cada território é aplicada uma metodologia diferente porque a problemática é diferente em cada região. Em alguns locais o problema pode ser o acesso à unidade, em outros a exames, à consulta, então, são várias vertentes. Desta forma, estamos pensando com foco no acesso da gestante, a garantia desses exames e em como acompanhar esses dados internamente para que a gente possa sinalizar, não somente quando tiver um número alarmante, mas que possamos agir antes que aconteça o óbito infantil ou materno”, esclarece a coordenadora.

ConVIDA Gestante
Nascido a partir das discussões a cerca do diagnóstico, o projeto ConVIDA Gestante é uma das iniciativas piloto que a Prefeitura de Aracaju começou a adotar nas Unidades Básicas de Saúde (UBS), mais precisamente nas duas regiões que, de acordo com os indicadores, são onde mais ocorreram mortalidade infantil, em Aracaju, os bairros Santa Maria e Santos Dumont.

O projeto, de forma sucinta, consiste em mutirões constantes, realizados aos sábados, para chamar gestantes e parceiros para o acompanhamento do pré-natal. Durante a realização do ConVIDA Gestante, são ofertados vacinação, consulta com a equipe de Enfermagem, consulta com médico, caso haja necessidade, consulta com dentista, teste rápido para HIV, sífilis e Hepatite B e C, além do projeto Sala de Espera que vai prestar orientação sobre amamentação, cuidados básicos e higiene.

A coordenadora da Área Programática e Estratégica da SMS, Kamila Fialho, explica que a ação é uma espécie de mutirão do trabalho já realizado com as gestantes nas UBSs. “É uma intensificação de consultas do pré-natal. Mulheres que estão até o sexto mês com poucas consultas ou com nenhuma, a vinculamos à sua unidade de origem, e mulheres no terceiro trimestre, acima do sexto mês de gravidez são atendidas quinzenalmente no ConVIDA”, ressalta.

“Identificamos que as gestantes estão chegando muito tarde ou não estão fazendo o pré-natal, e isso está muito ligado à questão de planejamento familiar. De 10 mulheres entrevistas, por exemplo, oito não desejam aquela gestação, o que impacta muito no começo do seu pré-natal, gera a descontinuidade do serviço, e favorece os problemas que causam a mortalidade infantil. O ConVIDA vem para chegar ainda mais próximo das gestantes e fazer esse chamado, além de nos ajudar a entender melhor o que leva as gestantes a não fazerem o devido acompanhamento. A falta de atenção e cuidado durante o pré-natal pode levar à morte, tanto do bebê quanto da mãe”, frisa Carlos Noronha.