O resultado de mais de dois meses de oficinas apareceu em todas as cores, formas e detalhes na exposição ´Arthur Bispo do Rosário – instalação cenográfica de réplicas das obras do artista sergipano´, que serão usadas no filme ´Senhor dos Labirintos´, rodado ainda esse ano na capital e lançado em 2009. O prefeito Edvaldo Nogueira, acompanhado do governador Marcelo Déda, prestigiou o coquetel de inauguração na noite de ontem, quinta-feira, realizado no espaço Norcon Decide, no bairro Jardins.
As peças foram produzidas por presidiários, lavadores de carro, arquitetos, estudantes, integrantes de associações de artesanato e uma pluralidade de anônimos que tiveram a oportunidade de mergulhar no universo de um dos maiores artistas contemporâneos do Brasil, consagrado inclusive no exterior. As atividades ocorreram na Unidade Produtiva da Fundação Municipal do Trabalho (Fundat) da Prefeitura de Aracaju, que apoiou o filme desde o primeiro momento.
"Apesar de toda obra ter sido produzida no Rio, as raízes da cana, dos bordados e da opressão contra o negro estão sem Sergipe. Como dizia Dostoievski, ´se quer ser universal cante a sua aldeia´. Precisamos dizer ao Brasil que Bispo é sergipano. Outro aspecto importante é que a produção desse filme qualifica mão-de-obra, abre perspectivas para o marcado local e vai mexer de tal maneira com a inteligência e a sensibilidade da população, que a partir dele poderemos realizar aquele sonho acalentado há anos de montar aqui um pólo de audiovisual", ressaltou o prefeito.
O Governo do Estado entrará com uma cota de patrocínio no valor de R$ 800 mi, sendo R$ 500 mil do Programa de Apoio Cultural do Banco do Estado de Sergipe (Banese) e R$ 300 mil do Fundo Estadual de Patrocínio de Projetos de Comunicação Social. O contrato foi assinado na tarde de ontem, quinta-feira, na Unidade Produtiva da Fundat. "Estamos presenciando uma grande oportunidade para mostrar ao Brasil o valor da cultura sergipana. Arthur Bispo do Rosário é, sem dúvida alguma, o mais importante artista plástico brasileiro contemporâneo, alcançando reconhecimento internacional", declarou o governador.
A construtora Norcon é a principal parceira da iniciativa privada e aproveitou a abertura da exposição para formalizar a assinatura do contrato de patrocínio. "Essa exposição representa a valorização efetiva da arte sergipana, na medida em que entregamos ao país um artista que fez mais exposições no Brasil e no exterior do que em Sergipe mesmo. Cumpre-nos abrir espaço e reconhecer o valor desse homem viveu enclausurada e produziu uma obra que é valorizada e admirada nos maiores centros de arte contemporânea do mundo, inclusive na bienal de Veneza", destacou o coordenador do Projeto das Artes da Fundação Oviêdo Teixeira, mantida pela construtora.
Logo depois da assinatura, Edvaldo Nogueira, Marcelo Déda e a primeira-dama Eliane Aquino, ao lado do prefeito de Japaratuba, cidade natal do artista, Padre Gerard, descerraram a exposição da cela de Bispo do Rosário, que sofria de esquizofrenia e passou 50 anos preso na Colônia Juliano Moreira, no Rio de Janeiro. O seu talento só foi reconhecido depois da morte, em 1989, quando foi descoberta por especialistas nacionais e estrangeiros uma arte pura, ingênua, autêntica e extremamente rica em detalhes.
Uma arte que buscava ´reconstruir o universo´ a partir de elementos do cotidiano e de materiais como lençóis, sucata, linhas e bordados inspirados nas manifestações da cultura popular de Sergipe. As peças eram, como dizia o autor, para "ofertar ao Deus todo-poderoso no dia do Juízo Final". Esse caráter divino surgiu em 1938, momento em que Bispo do Rosário teria visto Cristo descer no quintal da casa acompanhado de sete anjos azuis. A visão o perseguiu pelo resto da vida e se traduziu na produção obsessiva dos anos seguintes.
Matriz cultural
Segundo o diretor de arte do filme, Sérgio Silveira, a opção por produzir as réplicas em Aracaju surgiu porque os originais são muito frágeis e não podem sair de onde estão. "Esse filme pressupõe 70 anos da história, então muito disso se destrói, se arrebenta. Poderíamos ter feito no Rio, em São Paulo ou Salvador, que têm mão-de-obra especializada, mas viemos fazer aqui para tentar apoio e juntar a cercania da região fundadora da matriz cultural do Bispo com o nosso filme. Procuramos pegar gente muito próximo à etnias culturais e imaginárias que ele guarda, desde doutorados em arquitetura até lavadores de carro".
O ator Flavio Bauraqui, que fará o Arthur Bispo do Rosário, falou da motivação de fazer um papel tão denso, rico e complexo, assim como da sua satisfação em realizar um trabalho foram do eixo Rio-São Paulo. "Toda vez que vou criar uma personagem, seja qual for, penso no seu coração, não me pego a caricaturas. Nunca construo de fora para dentro, mas de dentro para fora. Me aproprio das coisas e uso coisas minhas emoções, minas reflexões, minha loucura. O Brasil não termina onde termina Rio e São Paulo. É importante descentralizar. Nosso país tem outros sotaque, tipos e gente e realidades que precisamos mostrar", argumentou.
Biografia
Arthur Bispo do Rosário (1909 a 1989) vai em 1925 para o Rio de Janeiro trabalhar na Marinha Brasileira e na companhia de eletricidade Light. Em 1938, após um delírio místico, segue para um mosteiro que o envia para o Hospital dos Alienados na Praia Vermelha. Diagnosticado como esquizofrênico-paranóico, é internado na Colônia Juliano Moreira, no bairro de Jacarepaguá, no Rio de Janeiro.
Entre 1940 e 1960, alterna os momentos no hospício e períodos em que exerce alguns ofícios em residências cariocas. No começo da década de 1960, trabalha na Clínica Pediátrica Amiu, onde vive em um quartinho no sótão. Ali, inicia seus trabalhos, realizando com materiais rudimentares diversas miniaturas, como de navios de guerra ou automóveis, e vários bordados.
Em 1964, regressa à Colônia, onde permanece até a morte. Cria por volta de mil peças com objetos do cotidiano, como roupas e lençóis bordados, revelados em 1980 durante uma matéria de Samuel Wainer Filho para o ´Fantástico´, da TV Globo. Dois anos depois, o crítico de arte Frederico Morais inclui suas obras na exposição À Margem da Vida, no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro (MAM/RJ). Desde então, o artista tem inspirado filmes, livros e ainda peças teatrais.
Para preservar sua obra, tombada pelo Instituto Estadual do Patrimônio Artístico e Cultural (Inepac), em 1989 é fundada a Associação dos Artistas da Colônia Juliano Moreira. Sua produção está reunida no Museu Bispo do Rosário, denominado anteriormente Museu Nise da Silveira, localizado na antiga Colônia Juliano Moreira. Em Sergipe, o grupo teatral Imbuaça encenou o espetáculo ‘Senhor dos Labirintos’, adaptado do livro de Luciana Hidalgo. Nos meses de maio a junho, estão previstas as gravações do filme de mesmo nome, dirigido por Geraldo Motta.
Presenças
Compareceram à solenidade o diretor-presidente da Norcon, Tarcísio Teixeira, assim como toda a diretoria da empresa, o presidente do Banese, João Andrade, o ator e diretor do Teatro Tobias Barreto, Lindolfo Amaral, o reitor da Universidade Federal de Sergipe (UFS), Josué Modesto dos Passos Subrinho, a produtora do filme, Eliza Tolomelli, o diretor e roteirista Geraldo Motta, o diretor de arte, Sérgio Silveira, a diretoria de produção, Renata Alvarenga, e a assistente de produção executiva, Ivy Almeida.
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