Vitória, de 8 anos, exibe um sorriso que vai de um canto a outro do rosto. A expressão leve, como a de alguém que descobriu um pote de ouro no fim do arco-íris, tem uma razão que vem por meio de gestos manuais. Vitória, apesar de ouvir muito bem, tem dificuldade na fala e, por isso, até pouco tempo atrás, não conseguia se comunicar com coleguinhas e professores da escola em que estuda. O pote de ouro chegou personificado na figura da professora Kátia de Oliveira que, entendendo de Libras, encontrou na linguagem dos sinais uma forma de ajudar a pequena a melhor se comunicar. Tanto Kátia, como Vitória, decidiram abrir um pouco mais dos horizontes da linguagem através de uma capacitação em Libras ofertada na Escola Municipal de Ensino Fundamental (Emef) Ágape.
O sorriso de Vitória foi exibido com intensidade durante o curso de capacitação. Durante os encontros, a aluna e sua professora puderam estreitar ainda mais os laços com a linguagem dos sinais e, de quebra, puderam ter contato com professores que tinham o mesmo desejo de conhecer melhor sobre Libras.
"Eu ministro aula em outra instituição de ensino e era professora da irmã de Vitória. Eu já sabia um tanto sobre Libras e, por coincidência ou não, um ano depois que comecei a dar aula pra irmã dela, fui trocada de turma e passei a ser professora da Vitória. Já no início, eu percebi a dificuldade que ela tinha, tanto em ter contato com os coleguinhas, como também em absorver os assuntos apresentados em aula. Daí, decidi ensinar Libras para ela e a evolução, em todos os aspectos, é visível. Quando soube dessa capacitação, perguntei para a mãe dela se poderia trazê-la e ela não só permitiu como também participou das aulas junto com a irmã de Vitória. Concluir essa capacitação e ver o resultado nas expressões de alegria de Vitória é a maior recompensa", contou Kátia de Oliveira.
Foi justamente para multiplicar esses sorrisos de Vitória que professores da Emef Ágape solicitaram a capacitação em Libras como complemento das atividades de formação continuada do Programa Horas de Estudo. O curso aconteceu durante quatro encontros, com aulas à noite nas dependências da própria escola. "Não temos nenhum aluno com deficiência auditiva ou perda total da fala, mas, alguns professores já tinham se deparado com alunos portadores dessas deficiências e não conseguiram ajudar da forma como esses alunos necessitavam. Foi aí que houve essa sugestão de realizar o curso", esclareceu a diretora da unidade, Deisivânia dos Santos.
A Emef é uma das referências em ensino público em Aracaju. Além de ter projetos constantes de estímulo à leitura, à música e ao aperfeiçoamento do ensino em diversas áreas, a unidade é vem numa crescente na avaliação do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb), sendo que possui índice bem acima da média, 6,9 pontos, quando a meta é 5. "Acredito que um bom ensino passa pela vontade de fazer e por uma equipe que busca sempre se melhorar. Aqui na Ágape, os nossos professores sempre estão na busca pelos alunos, não só em sala de aula. Se um aluno falta, vamos até a família saber o que ocorreu. Nos aproximamos para compreender o contexto desse aluno porque é na base desse ser humano que devemos trabalhar. Nessa perspectiva, entra a capacitação em Libras. É mais um forma de atender às necessidades dos alunos. Quando for preciso, saberemos como receber o aluno com a deficiência e acolhê-lo da melhor maneira possível", destacou a Deisevânia.
A Lei 10.436/2002 dispõe sobre a Língua Brasileira de Sinais (Libras), sobretudo no tocante à formação de professores em Libras, para promover a transmissão e o ensino formal enquanto disciplina nas escolas. Foi a partir daí que surgiram muitos cursos de graduação em Libras, por exemplo. Porém outras formas de transmissão dessa língua sempre existiram, com metodologias menos ou mais formais.
De acordo com a coordenadora da Educação Especial da Secretaria Municipal da Educação (Semed), Thaísa Aragão, os cursos de capacitação sempre foram ofertados para aqueles que desejam aprender mais essa língua. A Semed, através da Coordenadoria de Educação Especial (Coesp), promove cursos básicos de Libra (4 módulos/4 semestres) para professores comunidades escolares.
"Atualmente o nosso alcance nesse trabalho específico com os surdos e deficientes auditivos está ainda melhor qualificado tendo em vista a contratação recente de intérpretes e instrutores de Libras. Os alunos que necessitam desse profissional estão acompanhados, e as escolas, bem como as unidades da Semed, também têm à sua disposição os instrutores que fazem um trabalho de orientação institucional em torno da inclusão desses alunos, bem como promovem atividades e projetos em prol da inclusão.Ter professores interessados e se dedicando ao estudo de LIBRAS é condição imprescindível para a sustentação de espaços escolares mais inclusivos e acolhedores das diferenças. A Emef Ágape nos procurou com um grupo de professores super engajado e interessado em aprender mais. Não só professores, mas há também pessoas da comunidade que fizeram parte da turma, pequena na quantidade, porém enorme no desejo de aprender", ressaltou Thaísa Aragão.
A intérprete Alanne Cruz abraçou prontamente a solicitação. "Foi um curso básico, mas, extremamente necessário. É preciso que os professores estejam sempre preparados para receber esses alunos e, sobretudo, que saibam se comunicar com esses alunos para que estes possam se sentir parte da unidade de ensino. Uma criança com deficiência auditiva, por exemplo, que chega à escola que não estabelece comunicação terá dificuldades sempre. O papel da escola é, também, o de facilitar os laços sociais e, para isso, a comunicação é indispensável. O professor que desejar aprender Libras, não só é melhor capacidade, como também aprende muito mais em como cuidar do próximo, seja ele aluno ou não. É um ganho para o profissional, mas, sobretudo, enquanto ser humano", frisou Alanne.
Professora há 14 anos, Arine Carnaúba é recente na rede municipal de ensino, mas, já chegou com espírito de se doar mais e encontrou no curso de Libras uma maneira de se capacitar e melhor atender seus alunos. "Eu sempre quis fazer o curso e encontrei a oportunidade. É mais uma maneira de me comunicar, além de poder aguçar o meu olhar para o outro. Como sou professora polivalente, preciso saber outra linguagem para atingir meu objetivo que é passar o conteúdo da melhor maneira possível e auxiliar na formação do aluno como cidadão. Gostei tanto do curso que já plantei a sementinha na minha casa", afirmou.
Agora, com a conclusão do curso os sorrisos de Vitória poderão ser refletidos em outros alunos que, como necessidades similares à dela, encontrarão em professores capacitados as razões para seguir o caminho com o pote de ouro nas mãos.
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