Na noite da última sexta-feira, 03, passado e futuro estiveram juntos como nortes para a programação final do X Fórum de Forró de Aracaju. ‘Para onde vai o forró? – Os novos rumos da música nordestina’ foi a palestra ministrada pelo pesquisador Expedito Leandro e pelo forrozeiro Eliezer Setton. A noite ficou completa com os depoimentos sobre a vida e a obra de Josa ‘O Vaqueiro do Sertão’, como parte da homenagem a este, que é uma dos maiores nomes da música popular nordestina.
Nesses três dias de atividades, participaram do evento diversas autoridades, músicos, artistas, jornalistas, além de pesquisadores, estudantes e vários interessados pela cultura do nordeste. Aqueles que não puderam ir ao Centro de Convenções de Sergipe tiveram a oportunidade de acompanhar todos os trabalhos e homenagens em tempo real através da transmissão online disponibilizada pela Fundação Municipal de Cultura, Turismo e Esporte (Funcaju), organizadora do Fórum. A participação do público foi indispensável para o desenvolvimento dos debates, abrilhantando as honrarias prestadas aos músicos homenageados.
Josa ‘o Vaqueiro do Sertão’, é sergipano, tem 82 anos, é natural do povoado do Jacaré em Simão Dias e prestigiou o evento ao lado da família e amigos como Erivaldo de Carira e Maria Feliciana, que contaram o pouco de sua história de vida e sua carreira. "É uma emoção muito grande ver meu pai recebendo essa homenagem hoje e sendo reconhecido ainda em vida por seu trabalho e seu amor pela música nordestina", agradece sua filha e também cantora, Joseane de Josa.
Nascido José Gregório Ribeiro, Josa tornou-se conhecido quando estreou em 1960 no Rádio, na antiga Difusora, hoje Aperipê, onde por 25 anos manteve o programa "Festa na Casa Grande". Graças ao programa, ele acabou sendo ouvido por Luiz Gonzaga, de quem partiu o convite para gravar seu primeiro disco, um compacto simples, "Fazendo Zabumba". O músico fez várias turnês e chegou a se apresentar no programa do Chacrinha, no Rio de Janeiro. Hoje é reverenciado como um dos mais importantes nomes da música popular sergipana.
Papel socioeducativo
Quando criado em 2001 o Fórum foi pensado como iniciativa a se somar na luta pela valorização do forró, e nestes últimos dez anos a Prefeitura Municipal de Aracaju deu continuidade à proposta transformando-a hoje em um dos mais ricos momentos de debate sobre música popular em todo o país.
Segundo Expedito Leandro, professor da Universidade de Santo Amaro, em São Paulo, e autor do livro ‘Forró no Asfalto’ o Fórum é uma ação rara, mas de relevância ímpar pra a sociedade. "Este evento, enquanto momento de discussão sobre o forró, é certamente inédito em todo o nordeste", destaca. "É bastante salutar ver no órgãos públicos o interesse por trazer à tona os nossos referenciais e a nossa cultura tradicional", elogia.
Em sua participação, o professor Expedito destacou o forró como elemento da identidade sociocultural do povo nordestino que chega a ser uma expressão de proporções nacionais. Ele fez também um levantamento histórico da evolução do forró desde o seu surgimento, com o baião, ao processo de urbanização iniciado por Luiz Gonzaga – que leva o ritmo do sertão à capital. Além disso, ele expôs a evolução do estilo musical, que passou por experiências como o forró rock (de Alceu Valença), o forró universitário da década de 90, chegando à virada do século e aos dias de hoje com o forró eletrônico, ou ‘forró de banda’.
Futuro em debate
O pesquisador demonstrou uma visão crítica quanto a este novo formato musical, tratando-o como "uma intervenção mercadológica que busca o espetáculo e a sofisticação, mas é mais pobre na medida em que seu repertório é composto por objetos descartáveis". Ele, no entanto, destacou como pontos positivos a serem creditados ao forró eletrônico, o fato deste possuir uma musicalidade unificadora do sentir nordestino – que na realidade remete a tradição de sociabilidade que caracteriza o forró desde o seu surgimento, e as mudanças da cadeia produtiva da indústria fonográfica que, por exemplo, facilitaram o acesso do povo às produções musicais.
O cantor e compositor Eliezer Setton trouxe um discurso descontraído que divertiu e emocionou o público do fórum. Para responder o questionamento que ele mesmo levantou; ‘o forró de hoje pode ser chamado de forró?’, ele comparou o ritmo com outra tradição nordestina: a tapioca. "O forró de raiz é a tapioca de coco, sem enfeites nem aspas, já este novo tipo de forró é como as tapiocas recheadas. Apesar de ter suas diferenças, elas ainda são tapiocas. O forró eletrônico é apenas mais um formato de forró que pode sim conviver junto ao forró de sanfona", analisa.
Respondendo ao questionamento tema da palestra sobre o futuro do forró, o professor Expedito disse apostar em uma volta às raízes. "Eu vejo as manifestações culturais como processos cíclicos, por isso acredito que o futuro do forró está no retorno à manifestação tradicional", opina. Eliezer, por sua vez, preferiu uma abordagem mais pessoal. "Eu não sei para onde vai o forró, só sei que para onde quer que ele vá, eu vou junto", brinca.
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